A guerra dos Fetiches

O fetiche do papel, ou as maravilhas do toque tecnológico? Quem será que vai ganhar esta batalha?
E a guerra?
Existirão, de fato, perdedores, ou todos sairemos ganhando?

Recentemente, o semiólogo, escritor e ensaísta italiano Umberto Eco aceitou o convite de seu colega francês, Jean-Phillippe de Tonac, para se encontrar com o bibliófilo, escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, a fim de discutirem o futuro do livro impresso. Os encontros – bem informais, diga-se de passagem -, foram à beira da piscina, regados a bons uísques e resultaram no livro que deverá sair pela editora Record na segunda quinzena de Abril, cujo título, nada sutil, é simplesmente: “Não contem com o fim do livro”.

O grupo, claro, defende que o livro é uma invenção consolidada, e que de forma alguma se encontra ameaçado por qualquer revolução tecnológica que surja.

“O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais.” – Umberto Eco

No meio literário, há quem defenda, com unhas e dentes, tal ponto de vista. Mas como explicar, entretanto, o sólido crescimento nas vendas de e-books em todo o mundo, ao lado de uma quase-paralisação de vendas de livros impressos? De acordo com pesquisa publicada pela Association of American Publishers, os e-books ascenderam novamente, gerando crescimento anual nas vendas de 55% entre 2002 e 2007, versus o anêmico crescimento no comércio global de livros, de apenas 2,5%. Segundo o International Digital Publishing Forum, a venda de e-books nos Estados Unidos cresceu 108% em novembro, enquanto as vendas globais da indústria diminuíram. Além disso, não podemos nos esquecer de que a própria Câmara Brasileira do Livro (CBL), em parceria com a Frankfurter Buchmesse, está organizando o Primeiro Congresso Internacional do Livro Digital, que acontecerá entre os dias 29 e 31 de março.

Se, no início, os e-books frustraram as expectativas reais dos consumidores-leitores, hoje, a realidade anda bem diferente. A tecnologia das telas mudou drasticamente, proporcionando uma experiência bem semelhante à do uso do papel, além de termos uma boa gama de títulos à disposição e com preços cada vez mais acessíveis.

Quem trabalha com livros sabe: seu custo de produção é alto. Não há como não repassar tais custos ao leitor. E ainda há o problema da distribuição dos lucros: o autor e a editora ficam com a menor parte. Quem acaba lucrando, mesmo, são os livreiros. Não é de se espantar, portanto, que as grandes casas editoriais se arrisquem cada vez menos com autores iniciantes (por melhores que sejam!) e que as pequenas tenham por hábito cobrar desses autores seus custos de produção. Também não é de se espantar que as tiragens de cada publicação estejam cada vez menores.
Já com os e-books, a história muda: seu custo de produção é relativamente baixo e, por não ter de contar com a impressão (parte mais cara da produção), seu custo será sempre o mesmo, tanto para 10, para 100 ou para 10.000 livros.
O leitor deve estar se perguntando: então, por que as empresas não disponibilizam todo o seu acervo virtual de graça? É bom lembrar que toda publicação não se resume à impressão. Diversos profissionais entram em cena para garantir a qualidade da obra: escritores, revisores, preparadores de texto, ilustradores, diagramadores, arte-finalistas e o que mais for necessário.

De acordo com Coker, colaborador do blog TeleRead, voltado aos e-books, bibliotecas digitais e tópicos relacionados, ainda é cedo para afirmarmos qual será o impacto que o crescimento de vendas de e-books ao redor do mundo terá sobre o mercado de livros convencionais. Isso porque não se sabe se, de fato, o mercado de e-books engolirá a indústria que produz livros de papel – assim como as novas mídias fizeram com a preterida indústria de vinis -, ou se, ao adquirir um e-book, o leitor desejará possuir tal título também em papel.

Voltando à questão do Fetiche: existem pessoas que, como eu, amam o cheiro, o tato, a sensação do papel. Afinal, como já dizia um querido professor da Universidade de São Paulo: livro bom é livro usado. É aquele que conta não só a história impressa, mas as suas noites de sono mal-dormidas. Mas, caríssimos, meu gene primordial pertence à geração Y: aquela que não sossega diante de novas tecnologias. Então, digam-me (após assistirem ao vídeo abaixo): há como resistir às novas mídias?

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