Mais um olhar sobre Werther

Eu quero voltar a me apaixonar por Bovary.

Ela está aqui. Bem aqui, na minha frente: vermelha, altiva e me encara nos olhos. Entretanto, só tenho pupilas para Werther. Ainda.
O que mais me chamou a atenção no livro de Goethe eu não sei dizer. Destacaria seu gênio apaixonado (sempre me apaixono por gênios), suas cartas filosóficas direcionadas ao seu amigo Wilhelm – nas quais ele questiona, sensivelmente, valores “morais” da sociedade e os repensa sob seu ponto de vista, um tanto anárquico e apaixonado. Mas a estrutura narrativa do livro foi, de fato, o que mais me surpreendeu. Ao iniciar com as cartas e finalizar (pela metade do segundo livro em diante) com o segmento “do editor ao leitor”, ele passa, com tranquilidade e longe de comprometer a integridade do livro, da primeira para a terceira pessoa. Mudando, claramente, o tom do relato, percebemos novos pontos de vista dentro da obra e, tomando certa distância do já condenado protagonista, apaixonamo-nos, ainda mais, por sua história e seu infortúnio.
Sua filosofia de vida ainda ecoa em minha mente e sinto falta, de verdade, de sua correspondência quase que diária.
Matei o livro em 3 dias, com milhares de anotações, mas já estou pensando em ressuscitá-lo.
Preciso dizer que a edição da Martins Fontes, está exemplar: tanto no corpo do texto, escolha das fontes, escolha dos papéis e o acabamento. Tudo feito de modo a facilitar a leitura.
O Prefácio “Um Certo Goethe” dá-nos boas referências biográficas a respeito do autor, situando seus personagens no contexto de sua vida real.

Ilustração de Nicolas ChodowieckiIlustração de Nicolas Chodowiecki

Fragmento:

Maio, 22

“A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou nisso. Pois essa impressão também me acompanha por toda a parte. Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades ativas e investigadoras do homem, e como todo o nosso trabalho visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não têm outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existência; quando verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranqüilidade, quanto a certos pontos das nossas pesquisas, por meio de uma resignação povoada de sonhos, como um presidiário que adornasse de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas as paredes da sua cela… tudo isso, Wilhelm, me faz emudecer. Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo! Mas, também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas. Tudo flutua vagamente nos meus sentidos, e assim, sorrindo e sonhando, prossigo na minha viagem através do mundo.” – Retirado daqui.

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