As possibilidades do Amor pós-moderno

“Meu amor é algo infinitamente precioso, que eu não tenho tempo de desperdiçar sem prestar contas”
– Freud

Numa noite dessas, insone – para variar –, eis que me descubro perambulando pela internet, sem muita paciência de me fixar em nada. Encontro, então, no site da CPFL Cultura, um vídeo do café filosófico de Catherina Koltai, sobre a família pós-moderna.

O pós-modernismo, segundo a psicanalista, teria se iniciado a partir da Revolução Francesa e seria marcado, sobretudo, por uma economia neo-liberal e um individualismo exacerbado; por uma cultura do hedonismo, do prazer a todo custo no aqui e agora; pelo delírio consumista e um desinteresse e desinvestimento no social. É como se, no mundo pós-moderno, nós desacreditássemos na possibilidade de mudança social. Todos estes fatores conjugados interfeririam diretamente em nosso conceito de Família, não representando, entretanto, o fim desta instituição. Logicamente, o conceito de Amor também se modifica dentro desta estrutura.

A família pós-moderna está menor, sendo considerados no núcleo familiar apenas a mãe, o pai e os filhos (quando muito), e não se baseia mais nem no amor romântico, nem no conceito de fidelidade. Hoje, os laços de casamento são procurados por laços de relações íntimas e sexuais, e quando há insatisfação, há maior possibilidade de separação. As perguntas que podemos levantar são: será que o fato dos laços terem se tornados tênues prejudica o novo conceito de família? É possível amar em liberdade? Catherina Koltai defende que depende da forma como vamos ler tais questões. Depende, inclusive, da forma como entenderemos os conceitos de felicidade e infelicidade.

Neste momento da palestra, Catherina introduz alguns tópicos do livro “O mal-estar da civilização”, de Freud, e inicia a explicação sobre os 3 fatores que atrapalhariam a felicidade humana:

  1. A natureza, que é sempre mais poderosa que o homem. Não se consegue dominá-la completamente;
  2. A decadência do nosso corpo. É o fato de sermos mortais, adoecermos e envelhecermos. A vida tem sempre um limite.
  3. E o mais importante: o convívio com meu semelhante (como diria Sartre: “o inferno são os outros” – citação minha).

O paradoxo de tudo isso está no fato de que se, por um lado, o convívio com nossos semelhantes nos impede a total felicidade, por outro, o isolamento é impossível. O homem criou a civilização, a família e o Estado para sobreviver à natureza. E, para fugir de um tipo de sofrimento (a natureza poderosa, por exemplo), o ser humano criou um sofrimento ainda maior (a sociedade).

Assim, o homem moderno trocou seu desejo de felicidade pela satisfação de não ser completamente infeliz.

Para compreender essa trajetória de satisfação em não ser completamente infeliz, é preciso entender o poder dos mitos.

Mito (Freud): Era uma vez um macho que possuía várias fêmeas pela força bruta. Neste momento, a liberdade deste pai primitivo era absoluta. Ali, ainda estávamos longe do que seria o conceito de todas as famílias humanas, que é a proibição universal do incesto. Isso ocorre até um momento em que os filhos se revoltam, matam o pai, fazem um festim canibálico e introjetam seus valores. Tudo o que o pai primitivo proibia pela força bruta, os filhos proibirão pela lei. Decidirão, pela lei, quais as mulheres proibidas e quais as permitidas. Ou seja, a primeira lei humana, que marca a passagem da orda primitiva (estágio natural) à família humana (estágio de cultura) é a lei universal proibitiva do incesto.

A primeira família humana, portanto, vai se basear em dois princípios: o do amor e o da necessidade (trabalho). O macho precisa de sua fêmea, e a fêmea não pode ser separada de suas crias. Caberia ao macho proteger sua fêmea e suas crias. Isso é Eros, o poder do amor sexual (freudianamente, todo amor é, em sua origem, sexual, é libido, mas se transforma quanto à finalidade).

A proibição universal do incesto mesclou famílias e gerou novas ramificações, criando comunidades cada vez maiores. O amor genital, erótico, levava à construção de novas famílias. Isso levou o humano a ter de conviver com um número cada vez maior de pessoas. Freud percebe, aqui, que há significativas diferenças entre o amor genital (entre 2) e o amor entre uma comunidade. O problema no amor genital é que “a gente nunca sofre tanto do que quando a gente ama” (Freud). Portanto, aquela que seria a primeira solução para a felicidade (o amor), acaba sendo uma solução para a infelicidade. Aquela que, em geral, mais nos faz sofrer.

Portanto, do ponto de vista Freudiano, o amor é exclusivo e, evidentemente, se opõe ao conceito de sociedade. Só que a sociedade e a vida factual não deixam de existir apenas porque queremos. Assim, o amor exclusivo tem vida curta. Os homens, então, já que não podem viver só de amor vão viver de trabalho e sociedade também. Só que as mulheres, ainda sob o ponto de vista de Freud, seriam anti-civilizatórias, pois gostariam de manter o ser amado perto delas, ao passo que o ser amado quer ir pro mundo. Isso evidencia a forma com que cada um dos gêneros tende a sentir, a entender e vivenciar o amor de formas particulares.

Aqui, com a complexidade das relações tanto no amor genital como no amor em sociedade (e a ampliação constante desta sociedade), entra a questão da agressividade que, para Freud, está no cerne de nossos desejos. O ser humano teria prazer com a agressividade. O ser humano, ao contrário dos animais, tortura. Essa punção de morte se revela na agressividade, na violência sexual, exploração do trabalho, exploração política, guerras, ditaduras etc. A violência revela-se em atos cotidianos e repetitivos, como se, de certa maneira, não aprendêssemos nada com a História.

O humano trabalha, portanto, com 2 punções:

  1. a de Amor: que construiu sociedades e busca ampliar cada vez mais este conceito;
  2. a de Morte, que procura destruir, através da violência, todos esses laços construídos.

O primeiro, tenta preservar a vida e o outro, tenta fazer com que o organismo volte ao estado inorgânico. Vivemos o tempo todo nesta dupla contradição. Freud vai dizer que nosso mal-estar decorre desta ambivalência em torno de nossas próprias construções sociais. Todas essas construções que nós mesmos edificamos, nós mesmos nos esforçamos por destruir. Para o psicanalista, esta ambigüidade não faz parte de algum processo evolutivo. Ou seja, não vivemos tal contradição simplesmente porque ainda não aprendemos a trabalhar e a conviver com tais condições contraditórias. Simplesmente, ambas as forças seriam ontogênicas, fazem parte de nossa própria natureza, de nossa essência humana. Neste sentido, a dualidade entre Eros e Tânatos faz com que o indivíduo, para escapar de sua própria destruição, seja levado a destruir o outro: tal é o conceito de punção de morte, elaborado por Freud. Para reprimir essa punção de morte, o ser humano vai desenvolver o complexo de culpa e o superego. Portanto, a violência que ele gostaria de colocar sobre o outro, ele acabará colocando sobre si mesmo.

Zygmunt Bauman, sociólogo, concorda com Freud de que o mal-estar social é estrutural e não conjuntural. Ele não crê numa evolução neste processo, o que, para um sociólogo – que costuma ter uma visão mais linear da evolução social –, é bastante curioso. Bauman reconhece que, na sociedade tal como Freud a descreveu, o ser humano trocou seu quinhão de liberdade por um quinhão de segurança. Na sociedade pós-moderna, parece, entretanto, que a troca tem sido inversa: em nome de uma liberdade individual, abrimos mão da segurança e vivemos numa sociedade do medo.

Em seu livro, Amor Líquido, Bauman analisa a fragilidade dos laços humanos. O autor investiga nesse livro de que forma as relações tornam-se cada vez mais ‘flexíveis’, gerando níveis de insegurança sempre maiores. A prioridade a relacionamentos em ‘redes’, as quais podem ser tecidas ou desmanchadas com igual facilidade – e freqüentemente sem que isso envolva nenhum contato além do virtual -, faz com que não saibamos mais manter laços a longo prazo. Mais que uma mera e triste constatação, esse livro é um alerta – não apenas as relações amorosas e os vínculos familiares são afetados, mas também a capacidade de tratar um estranho com humanidade é prejudicada.

(Vale ressaltar, entretanto, que continuo sendo uma romântica incorrigível)

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5 comentários Adicione o seu

  1. Achei o blog pelo twitter. Eu gosto mto de pensar essas questões de pós-modernidade também. Tenho estudado algo em relação a isto no mestrado. Mto bom texto.

    Eu fiz uma argumentaçãozinha sobre relações de amizade e amor na pós-modernidade, uma argumentação mais livre, só para expor de forma clara um ponto de vista. Tvz vc ache legal – http://napontadoslapis.blogspot.com/2009/07/as-relacoes-interpessoais-na-pos.html – nem acho legal colar link para o blog quando comento, mas é que postei algo próximo a esta temática mto recentemente.

  2. Ana disse:

    Nunca estudei Freud, mas acho quase intuítivas as conclusões dele sobre os laços que nos unem em sociedade. O fim do teu texto alerta-nos para os novos modelos que como muito bem refere nos deixam com uma sensação ainda maior de insegurança latente (mais a nós mulheres provavelmente). Tenho curiosidade em imaginar que sociedade será a nossa em 50 anos.

  3. Pois é, Ana… Segundo a visão tanto de Freud quanto de Bauman, acredito que as previsões sejam pessimistas. Mas, como otimista incorrigível que sou, vejo sempre uma luz no fim do túnel.
    Sob o meu ponto de vista, há 2 possibilidades: uma delas seria se nós, mulheres, trabalhássemos mais nosso lado “civilizatório”. O que quero dizer: certa vez assisti a um documentário de uma psicanalista (mulher, portanto) que dizia justamente sobre esta necessidade feminina (em geral) de querer manter o homem aprisionado dentro de casa, substituindo – quando esposa – em parte o “papel” da mãe (ou melhor dizendo, o papel que nós, mulheres, nos atribuímos quando somos mãe). Esta atitude, claro, prejudica qualquer relação. Mas acredito, sinceramente, que tal postura está mudando, uma vez que, em muitas famílias, a mulher é a provedora do lar. Ela sai para trabalhar, toma conta da casa e, cada vez mais, depende menos do homem.

    Outro ponto diz respeito aos relacionamentos virtuais e sua (ao menos aparente) fragilidade. Estamos, de fato, em uma sociedade que valoriza a liberdade individual em detrimento da segurança, seja social, seja dentro do relacionamento. Isto está ligado ao tal hedonismo da sociedade pós-moderna, citado no texto. Mas, pessoalmente, comparo este hedonismo aos movimentos de liberdade sexual dos anos 60/70. Houve um “boom”, sem qualquer tipo de “freio”, mas somos filhos de uma geração que nos deixou, de brinde, a Aids e outras doenças venéreas. Como filhos desta geração, tivemos de ser mais cuidadosos que nossos pais neste quesito, sem, entretanto, abrirmos mão da liberdade conquistada por eles. Como a história é cíclica (eu diria que nada se cria, tudo se repete), acredito que o que nossa geração Y deixará de herança para as gerações futuras (a Z, por exemplo), será uma maior consciência dos riscos e das lacunas deixadas por tais relações “virtuais”, tão “líquidas”, como diria Bauman. Assim, essas próximas gerações só aperfeiçoariam tais relações. Não acha?

  4. Ana disse:

    Olá Bea,

    Acredito nos ciclos sim… penso ser inevitável que depois de um ciclo mais libertário volte um ciclo mais conservador. No entanto muito do que é a definição base de um relacionamento irá mudar. Da mesma forma que a geração mais conservadora da década de 50 não teve nada a haver com a geração de 80. Há coisas que me preocupam bastante mais, na actual forma de viver, do que as relações amorosas. Preocupa-me mais o desapego da realidade, as horas em frente ao computador e consolas de jogos em detrimento dos passeios de bicicleta e do convívio cara a cara! A cada vez maior falta de disciplina e respeito pelos outros. Neste momento em Portugal vemos uma geração de adolescentes e crianças que agridem os professores (a quem ao longo dos tempos tem vindo a ser retirada toda e qualquer autoridade) e que em vez de serem repreendidos pelos pais, são apoiados, contra os mesmos professores. Ainda outro dia um professor se suicidou por não conseguir gerir o que se passava na sala de aula. Como é que uma geração que viveu já em liberdade (os pais desses de que falo já não cresceram na ditadura Salazarista), que não sofreu nenhuma guerra, que não teve em excesso mas também não viveu na miséria, que teve em geral uma vida equilibrada, está agora a fazer um tão mau trabalho com os seus filhos?

    Quanto ao papel da mulher e ao hedonismo e à nova forma que as relações tomam, precisamente pelo que disseste de a mulher já não ser tão dependente do homem, cada vez menos sentirá necessidade de manter ad eternum um relacionamento só para se sentir segura. Acredito que haja algum hedonismo “exagerado” que possa vir a dar origem a uma geração mais casta(!) mas acho que no geral as relações irão irremediavelmente mudar. Precisamente porque o elemento que mais vontade tinha de prender o outro neste momento tem muito mais facilidade em ser livre!

    Há alguns modelos familiares diferentes no mundo. A tendência será para ser mantido aquele que melhor resultar! Só o futuro o dirá!

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