Budapeste de Chico

em
“Artistas, políticos e escroques famosos batiam à minha porta, mas eu me dava ao luxo de atender somente personagens tão obscuros quanto eu mesmo. Clientes que me lembravam aqueles da sala três por quatro do centro da cidade, exceto por serem ricos o suficiente para pagar o cachê extorsivo que o Álvaro estipulava, além de custearem a tiragem do livro para distribuição entre parentes e amigos. Tipos como o velho criador de zebu dos cafundós do país, cujas memórias reescrevi com muito sexo, transatlânticos, cocaína e ópio, proporcionando-lhe algum conforto num leito de hospital.
O homem estava mesmo nas últimas, e mal teve forças para me autografar um exemplar do seu Inventário Passional, que levei para o encontro de autores anônimos em Istambul.
Selecionei as melhores passagens para leitura pública, mas meus pares exigiram que eu o lesse de cabo a rabo; se eu não tinha uma celebridade a assiná-lo, tinha quantidade delas dentro do relato, e enquanto relacionava as atrizes de cinema, primeiras-damas, senhoras do jet set e um ou outro príncipe que o velho levara para a cama, escutava o rebuliço e as gargalhadas na platéia.
Minha produção era então copiosa, e já às vésperas de partir para a Turquia tinha me comprometido a pôr em livro as aventuras cariocas de um executivo alemão, que agora me aguardava na agência. Mas eu estava com preguiça, vim pela praia devagar, vim olhando as meninas de bicicleta, parei para tomar um coco, quase dormi em cima do balcão, e quando cheguei o alemão tinha acabado de ir embora.
Fiquei um tempo plantado na recepção, sem saber o que fazer, e a voz aguda do Álvaro atravessava as paredes: mas a idéia de distribuir laranjas foi do governador. . . aí teria que numerar todos os cavalos. . . claro, ninguém pega herpes pelo telefone. . . o.k., cara, se você quiser, eu providencio uma tréplica. . . então vamos deixar para lá, tchau tchau. . . alô!. . . A recepcionista queria me anunciar ao Álvaro, mas não precisava, era muita a preguiça, era o fuso horário, era o jet lag, era vontade de ir para casa.”

Budapeste
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras

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