Arte de qualidade a todos

em

Finalmente, alguém que (re)pensa o velho modelo de atuação e de arte-para-artistas.
Aplauso de pé pela iniciativa. E estaremos esperando a estreia (já sem acento) em São Paulo!

 

(Fonte: Folha Ilustrada de hoje)

Fernanda Montenegro encarna Beauvoir em monólogo

LUCAS NEVES

O acaso tem sempre a última palavra, disse certa vez a filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986). Um de seus desígnios recentes foi o de reconduzir aos palcos a atriz Fernanda Montenegro, 79, depois de um hiato de sete anos, no papel mesmo da intelectual feminista e artífice do existencialismo.

O monólogo “Viver sem Tempos Mortos”, que apresenta o pensamento e os amores de Beauvoir a partir da correspondência dela com o marido, o também filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980), teve sua primeira apresentação anteontem à noite, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Marcos César Santos

Fernanda Montenegro interpreta Simone de Beauvoir em “Viver sem Tempos Mortos”
“Foi o acaso que me levou a Simone. Não trabalhava com o meu amigo Sérgio Britto havia 39 anos. Resolvemos fazer uma peça juntos. Apareceu um texto sobre [o dramaturgo russo Anton] Tchecov (1860-1904), mas pegaram-no antes de nós. Depois, surgiu ‘Tête-à-Tête’, biografia da relação de Sartre e Beauvoir. Aí veio o sucesso do Sérgio com ‘A Última Gravação de Krapp/Ato sem Palavras 1’. Ele então ficou lá com o [autor dos textos Samuel] Beckett (1906-89), e eu segui sozinha com a Simone”, contou a atriz, em debate após o espetáculo.

Antes, sentada numa cadeira por 50 minutos, ela havia feito uma síntese didática e abrangente da vida da escritora –as primeiras reminiscências remontando à infância.

Aos 21 anos, ao prestar exames para a licenciatura em filosofia, Beauvoir é apresentada à confraria de René Maheu (1905-1975) e Sartre, tido à boca pequena como “um devasso, frequentador de prostíbulos”.

Com ele, descobre mais do que filmes de caubói e romances de capa-e-espada: a extensão do feminino e o amor livre. Ou não tão livre assim, já que não conseguirá esquecê-lo quando a guerra os afastar geografica (ele serve ao Exército) e, mais tarde, afetivamente.

Encenação econômica

O texto também relembra a ascensão do existencialismo como produto cultural de exportação francês no pós-guerra e o sucesso do livro “O Segundo Sexo”, em que Beauvoir propõe um olhar sobre a mulher que não tome o masculino como referência, farol absoluto.

A encenação, dirigida por Felipe Hirsch, é austera, econômica, confia à palavra o protagonismo. No palco, há só um tablado retangular preto encimado por uma cadeira da mesma cor. Também pretas, estruturas discretas abrigam refletores superior e laterais. O rigor lembra o teatro nu de Peter Brook.

“Viver sem Tempos Mortos” integra um projeto de formação de plateias, que inclui a exibição comentada de filmes com Fernanda Montenegro, um documentário sobre Beauvoir e debates. A “caravana” cruzará a Baixada Fluminense e a região serrana do Rio antes de chegar a São Paulo, em 21/5.

“Há quem diga: ‘Vai levar esses intelectuais ao povão?’ Acho que o silêncio do público durante a peça e as perguntas no debate afirmam a qualidade dessas plateias [de fora dos polos culturais], mostram que elas estão prontas para qualquer temática”, afirmou a atriz.

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