A USP e a banalização da violência

Do direito de ir e vir. Do direito de ter opiniões contrárias às da maioria. Do direito de SER RESPEITADO pelas diferenças. E do direito de estar cansada de certas banalizações da violência na USP de uma forma geral.  
Recebi esta carta de minha querida amiga Lullis que, por sua vez, recebeu-a de seu professor. Repasso exatamente como me chegou.

USPIANOS: repensem suas atitudes! Estudo nesta universidade há 8 anos, e estou CANSADA de ver cenas como esta, descrita abaixo!
Antigamente, as greves eram bienais. Agora, temos edição anual deste fabuloso “evento”. E onde estão os funcionários e estudantes quando chamados à ação? Ou em casa, assistindo Big Brother, ou nos piquetes, socando funcionários e professores – salvo algumas excessões -. E no que é que deu tanta repetição de atitudes covardes?
Convido-os a repensar nossa forma de ação neste sentido. Mobilização sim! Mas sem violência, nem hipocrisia.

**************************** 

São Carlos, 11 de maio de 2007.

Prezado Diretor do IFSC, Presidente do CTA e Membros do CTA,

Comunico-lhes nesta oportunidade, com pesar e mesmo amargura, um fato

extremamente importante ocorrido no dia 10/05/2007, que se segue.

Se existe algo que cultivei e preservei, como professor nos meus quase 30 anos

de carreira universitária, é minha dignidade como educador e pesquisador.

Em toda a minha vida de cidadão brasileiro e como professor universitário,

nunca tive tal qualidade questionada, muito menos roubada e vilipendiada, como

aconteceu na referida data.

Ao tentar adentrar, por volta de 6:40 h da data mencionada acima, no campus da

USP/São Carlos (entrada pelos fundos do ICMC), como sempre o faço, recebi ordens

verbais de um pequeno grupo de funcionários e alunos para não fazê-lo, pois esta era a

recomendação tirada em assembléia de suas categorias. Tentei conversar e disse a eles

que os respeitava e respeitava também o direito deles fazerem suas manifestações,

porém queria que me respeitassem como cidadão, o meu direito de ir e vir em um local

público. Ao tentar entrar fui agarrado e impulsionado em direção contrária, por duas

vezes, com palavras de ordem para eu ir embora para casa. Como só havia

manifestantes grevistas no local, senti que se insistisse um pouco mais, as

conseqüências físicas, além das morais recebidas, seriam desastrosas. Pedi que os

funcionários me desses seus nomes reiteradamente e também os alunos, para que

pudesse ao menos buscar valer, a posteriori, os meus direitos. Não obtive respostas,

exceto por um dos funcionários que se denominou como “Zé”.

Minha indignação foi grande, maior do que se tivesse sofrido um seqüestro, pois

neste caso estaria lidando com bandidos e teria a esperança de que fossem punidos pela

lei. Mas, não no presente caso. Estava eu na frente de indivíduos “encapuzados” pela

identidade anônima, funcionários da Universidade que tanto prezo e assistidos por

alunos que são aqueles que tenho me dedicado por toda a vida. Uma luta desigual onde

em nenhum momento foi respeitada a minha dignidade como professor e ser humano.

Transtornado fui obrigado a sair do local. Consegui, pelo portão central da USP,

também cercado por outros manifestantes com atitudes truculentas, que entrasse no

campus, dizendo a eles que nossas conversas estavam sendo gravadas. Ao chegar em

minha sala por volta das 7:30 h, que é defronte à portaria da Física, pude ver cenas

típicas da revolução cultural chinesa, patrocinada pelo não saudoso Mão Tse Tung. Vi

colegas meus, como Prof. E. E. Castellano, Profa. Ivone Mascarenhas, Prof. Milton F.

de Souza, passarem por atitudes vexatórias de coerção moral e até física, com

funcionários colocando-se na frente da entrada dos professores. Vi uma cena triste onde

o líder dos manifestantes gritava com o Prof. Silvestre Raguza, gesticulando e dizendo

para ele ir embora e depois, numa atitude humilhante, erguer até meia altura os cordões

para que o Professor se curvasse e adentrasse ao campus. Não sei se por humilhação ou

por dificuldade física devido à idade, o Professor, que tanto contribuiu a diversas

gerações de pesquisadores, se retirou humildemente, ficando a poucos metros pensativo

e, com certeza, desapontado e perplexo antes de retornar para sua casa a passos lentos.

Vi um professor jovem (Daniel Vanzelli) que tinha a passagem interditada pelos

manifestantes e só conseguiu entrar após a intervenção minha e do Prof. Glaucius Oliva,

que viemos ao seu socorro após o chamado.

Mais tarde em passeata passaram os manifestantes em frente à minha sala,

pararam e ouvi meu nome, juntamente com o do Prof. Glaucius, sendo manchado com

palavras do mais baixo calão. Mais ainda, dito em público que fui um agressor ao tentar

no período da manhã adentrar à Universidade. Tudo isto ocorrendo com um conjunto de

estudantes, aqueles que tanto prezo, gritando e manchando meu nome.

Senti morrer em mim todo o orgulho e satisfação em dar e preparar os meus

cursos nesta Universidade. Senti-me indignado em ministrar cursos a estes alunos que

possuem tal opinião a meu respeito. Perdi minha dignidade.

Amargurado e revoltado resolvi ir ao sistema de segurança do Campus verificar

se havia gravação dos fatos ocorridos. Qual minha surpresa quando me informaram que

desde o dia 26 de abril de 2007 não havia gravação por motivo de expansão do número

de câmeras. O motivo não me convenceu, mas se o mesmo é verdade, porque não foram

comunicados os dirigentes e membros da Universidade? Talvez outras providências

pudessem ser tomadas se as gravações tivessem sido feitas.

O que mais me sensibiliza é saber que tais atitudes ocorreram e ocorrerão porque

os dirigentes (reitor anterior e a atual), diferentemente das suas responsabilidades de

resguardar a nossa dignidade como professores, em todo acordo de greve, a primeira

providência é a não punição dos grevistas. Esqueceram-se tais dirigentes que o

patrimônio maior da Universidade é a qualidade e a dignidade de seu corpo docente.

Quero minha dignidade de volta!

Prof. Dr. Francisco Castilho Alcaraz

Ilmo. Sr.

Prof. Dr. GLAUCIUS OLIVA

Diretor

Instituto de Física de São Carlos

Universidade de São Paulo

Anúncios

2 comentários Adicione o seu

  1. Gabriel disse:

    Assustador. Quero saber de onde vem a democracia.

  2. Pois é, querido amigo… Pergunto-me a MESMA coisa!
    Beijo grande para ti!
    Bia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s