carta ao pai

papai

Não pai, por aqui ainda nada mudou. Não tivemos tempo de ensinar o gato a falar, não avisei os contadores de tua partida e nem os móveis chegaram de São Paulo.
Não, nada mudou. A novela acabou e foi aquela mesma lenga-lenga das 6h, a chuva continua entrando pelas frestas das janelas mal fechadas, e meus olhos ainda denunciam minhas noites mal dormidas.
Sabe o problema com o fone de ouvido? Ainda o mesmo. E no teclado, o “a” permanece afogado no mar das letras, sozinho de tudo, de tanto ser usado…
Sua calculadora ainda ri de nós,  em cima do guia da Espanha, ao lado do carimbo da editora, do grampeador e de todo o caos que você cuidadosamente construiu na mesa do computador… e que dizia que trazia sorte, lembra? No meio disso tudo, a imensa lupa se sobressai, gloriosa…
Não. Definitivamente nada mudou. A economia é a mesma, os impostos são os mesmos, e o brasileiro… acho que nem preciso dizer.

Atibaia ainda é azul, São Paulo ainda é cinza, o Rio ainda é praia, e agora é Olímpico.
Pois é, pagaremos pela festa que nem sei se usufruiremos…

Lá no quarto dos fundos, na casa do vovô, o tabuleiro de xadrez lembra aquela eterna partida pela metade… Pela metade…
Mas que movimento fazer?
Se o Rei foi embora: checkmate.

Publicado em: on 24/10/2009 at 19:53 Deixe um comentário
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( )

Vovô foi viajar
Esqueceu os documentos
Deixou as roupas
Pra nunca mais
Dormiu

Publicado em: on 08/08/2008 at 21:05 Deixe um comentário
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Avôhai

Já me fiz a guerra por não saber

Que esta terra encerra meu bem querer

E jamais termina meu caminhar

Só o amor me ensina onde vou chegar

(Por onde for quero ser seu par).

 

Avôhai: a casa mais silenciosa. As portas um pouco encostadas. Vidraças um tanto embaçadas e olhos já sem o teu verde…

 

Avôhai: a vida que segue ligeira, o fogo ardendo sem lareira, promessa que já se esvai.

 

Avô, já vai? Fique mais um pouco. Apague essa dor no meu peito. Garanta que há vida lá fora e leva essa chuva que cai.

 

Vô, vai pra onde? Não vê que essa vida se esconde onde a tristeza não vai?

 

Avô, meu pai, avôhai: me deixa o sorriso brejeiro, me deixa esse amor tão matreiro, me ensina a viver um pouco mais.

 

Avôpai: não some com essa linda lembrança de 85 anos-criança…

Não foge pra longe demais…

 

Publicado em: on 25/07/2008 at 05:21 Deixe um comentário
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Pessach

Às vezes eu me pergunto: qual a vantagem de saber escrever quando não se sabe dizer, em palavras, aquilo que realmente se está sentindo?
E qual o valor das palavras quando tudo o que se tem dentro e fora de si é solidão?

Quando os amores calaram e as amizades se distanciaram; quando os laços se afrouxaram e só restam as lembranças do que um dia foi possível… É possível escrever sobre o que quando todas as lições que recebemos da vida nos ensinam que calar os sentimentos é, via de regra, mais saudável à saúde do jogo social?

E quando não se quer mais jogar? Abandonamos o jogo ou, na verdade, apenas brincamos sozinhos?

Não é possível que o melhor de mim seja o meu silêncio! Que a melhor medida sejam as desculpas. Que a melhor melodia sejam os ruídos! Que a melhor distância seja a ausência.
Não sinto isso.
E, no entanto, tenho aprendido cada vez mais a me calar.

Nós, mulheres, aprendemos muito cedo a amar o impossível, através dos contos de fadas. Talvez isso explique minha atual obsessão por cavalos marinhos. Também aprendemos a encarar as outras mulheres como rivais. Talvez isso explique a necessidade de plásticas e compras constantes.
Mas somos inabaláveis quando confiamos!
Talvez isso explique a força da nossa amizade, quando sincera.

É Páscoa e tenho me sentido cada vez mais só.
Meu irmão faz o possível pra me suprir as ausências, mas tem lágrimas que apenas outras mulheres entenderiam. E as “minhas” mulheres estão longe. Minhas duas irmãs, que eu demorei tanto pra descobrir. E que hoje me entenderiam antes mesmo de eu abrir a porta.

Porta que está cada vez mais difícil de se abrir.

Resposta(s) aberta(s) a um Passageiro

2612b3.jpg
(Gustavo Saba – Erosão de Eros)

Todos os lugares, Hoje de 2008

Num impulso de lhe responder, sem querer me conheci. E me abri a novas perguntas. Mas pretendo editá-las ao longo do caminho, sem me adiar demais, sem me amar de menos. E posso dizer que, se fosse, agora, dar nome ao disparate abaixo, cambaleava: Manual da alma feminina? Pedigree da alma-fêmea? Dúvida de uma transeunte que caminha 100% nos sentidos da razão, 100% no cemtidos da paixão.

– talvez, ao nos depararmos com as fraquezas da vida, encontramos, no aparente precipício, a Força mítica. Estou certa? Eu descubro. –

Mas, apenas para não me alongar demais nas respostas de menos, segue o confessionário. De hoje.

Direitos desrespeitados das mulheres. Muito meus. Posso confessar?
:
1) Do direito à TPM sem culpa, e tudo o que ela pressupõe (desejo de matar ou morrer, solidão, insônia, dramas, angústias, arrependimentos próprios seguidos de risadas intermináveis por uma piada mais ou menos sem graça e novas lágrimas com a propaganda da Doriana);
2) Do direito a chocolates sem calorias;
3) Do direito ao colo e à in-dependência declarada;
4) Do direito às manhas e às manhãs (citação, vc sabe);
5) Do direito ao trânsito livre entre o salto alto e a pantufa de bichinho;
6) Do direito a dar e receber carinhos sem hora marcada;
7) Do direito a se encantar com a chuva e esquecer da chapinha;
8 )Do direito a não ser sexy 24 horas por dia, 7 dias por semana;
9) Do direito ao amor com sexo, ao amor sem nexo, gritado ou sufocado;
10) Do direito a odiar amar Chico Buarque, Sartre e afins.

(Só pra citar os mais (im)prováveis)

Sobre Chico: Mulheres de Atenas são apenas algumas delas. Eu sou TODAS, de Geni a Terezinha. Também passei em exposição às vitrines e enxerguei, nas galerias, as Passagens de Walter Benjamin. Nos meus olhos, pude ver as vitrines e o nascimento de novos fetiches. A Metrópole (re)nascia a cada clarão, mas quem escorregou pelos vãos catando a poesia deste homem-fêmea fui eu.
Mea-culpa.

Amo.

E, como no “museu de grandes novidades”, esse amor não tem passado, não tem futuro. É um presente. Continuum. Matéria bruta que se decanta em composições mais, ou menos, (a)simétricas. Sem fins lucrativos.

Meu Amor não tem tempo. É um aqui constante.

E se bater à sua porta, com Ana ou Carolina, vestida ou sem-vergonha, saiba que todas as Beatrizes – de Dante a Chico, e mesmo as da feira – estão presente(s).
Não abra se só for capaz de olhar sem ver.
Mas escreva quando puder a esta,

Mulher de Passagem.

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O Passageiro: http://www.papodepassageiro.blogspot.com

It´s just something that we do

mulher-praia.jpg

Vontade de viver assim: um pouco mais à vista, um pouco mais à toa, um pouco mais garoa, com muito mais cartão.

Vontade de escrever assim: um pouco mais na brisa, um tanto mais na brasa, Deus disse: “desce e arrasa” e aqui, algum botão.

Vontade, aqui, de espinhos
e poucas mãos sangrando.
Vontade, mesmo, de língua
e todo um céu brotando.

Vontade da tua carta na minha caixa de entradas
e nenhuma despedida na caixa de saídas

-vontade de saídas
pra todos os lados
saídas de banho
pra que te quero?-

Vontade de mais enters
menos escs (ask me why)

Vontade de saber que, no fim, o F5 ainda funciona. E que chegará o domingo em que Fausto morrerá com tudo dentro. Ou sairá, em uma interminável férias…

Vontade de férias do medo
do escuro
do vazio
do agudo

Vontade de gata, de deitar na rede que é gozo
e me lambuzar
de tanta existência.

Vontade de desistência
de tudo o que queria nascer
abortado.

Vontade de que? De passado?
Nunca!
Só se for a limpo, que acabo de matar o objeto.

Vontade de me saber una
e mais livre
com teu sorriso by gtalk

e a felicidade de não depender de mais nada…
(celular: vibre, por favor!)

(Antiga…)

man.jpg

Eu

Olhares
Faces
Sorrisos
Facetas
Língua
Boca
Buceta
Poros
Nós
Bocas
Dentes
Línguas
Trava-línguas
Gengivas
Pedras
Água, sal
Falo, falos, conversas, teclados, visores, ouvidos-sem-tímpanos, palavras, pá-lavras, idéias, sementes, projetos, fuga, não-dito, mal-dito, ditados, deitados, silêncios, calados, cálidos, sozinhos, caminhos, buracos, frio, solidão, joguinhos, textículos, machados, flores-sem-papel, promessas, vírgulas, pontes

Você

Publicado em: on 10/12/2007 at 00:33 Deixe um comentário
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Exercício

mulher.jpg

Um tanto distraída
- mas eu vi o olhar que vc guardou no canto dos olhos ontem
[e guardei pra mim…

Inconseqüente
- agüente minhas exclamações exageradas
[seguidas de interrogações cortantes, talvez…

Apaixonada
- com certo silêncio contido na garganta
[à custa de vinho nem sempre barato

Apaixonada II
- gritos preenchem suspiros
[e lexotan na caixa

Apaixonada III
- assinei no espelho do banheiro
[com batom. só meu. ninguém viu.

e lexotan na mesa

Apaixonada de IV
- é comigo?
[é sobre nós dois

Des-contraída
contraiu sentença:

culpada

(viagra?)

é minha Lei

vou desarrumar as caixas
que vc arrumou
- sem meu consentimento -
no fundo do armário

as cartas estavam em ordem sim, embora vc não soubesse entender as letras molhadas de cada papel

(por que as pessoas sempre perguntam de seu namorado em véspera de seu aniversário?
“Já quase 30! Dá pra casar, está esperando o que? Envelhecer mais?”

Mas enquanto eu puder pagar meu café, não quero pensar nisso.
Não quero.
Não significa que não pense…)

Vou desarrumar as malas e ficar um pouco mais.
Traz as torradas?

 

língua

Publicado em: on 17/11/2007 at 19:24 Deixe um comentário
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