O amor que se vai

“As almas são incomunicáveis.
Deixe o teu corpo entender-se com outro corpo,
porque os corpos se entendem, mas as almas, não”
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– Manuel Bandeira

“Será que é possível explicar o que é o amor? E mais do que explicar, será que é possível determinar quando o amor nasce ou morre?”. Com estas perguntas, inicia-se o café filosófico cujo tema é “O amor que se vai”, com o psicanalista Flávio Gikovate, que tem como propósito discutir o amor no mundo contemporâneo, os relacionamentos cada vez menos definitivos e as separações, cada vez mais cotidianas.

Na palestra, Gikovate começa dizendo que gostaria de diferenciar o amor que fica, embora o sexo tenha acabado; e o sexo que fica, embora o amor tenha ido embora. Ao contrário do que muita gente pensa, diz o psicanalista, amor e sexo nem sempre andam de mãos dadas, podendo, inclusive, andar em oposição.

 

O que é o amor?

(Amor: remédio para a dor de existir?)

Para saber quando o amor se vai, é necessário, primeiramente, saber o que é o amor.

“O amor eu defino dizendo que é o sentimento que temos por aquela pessoa, muito específica e muito especial, cuja presença provoca em nós a sensação de paz, aconchego e harmonia. Então, o amor parece que tem a ver com a experiência essencial de todos nós, ou seja, com a experiência uterina… O amor corresponde a um remédio para a dor do desamparo que nasce no momento em que nós nascemos.” – Flávio Gikovate

Curiosamente, o psicanalista utiliza-se da metáfora bíblica do Paraíso para explicar nossa necessidade, por assim dizer, de amor: o útero seria entendido como a condição do Paraíso, e o nascimento é entendido como a expulsão deste Paraíso. Daí, nosso sentimento de carência e a quase permanente busca pela sensação de aconchego por meio de uma relação com outra pessoa.

Visto por este ângulo, o amor é sempre um fenômeno interpessoal, continua o psicanalista, pois depende de uma pessoa “específica” para sobreviver. Citando Shopenhauer, ele explica que o amor é o prazer  que deriva do fim da dor do desamparo. Tais características, bem infantis, aliás, estariam plenamente presentes em uma relação de amor romântico: sai a figura da mãe e entram outros objetos de amor. O vocabulário no amor romântico mostra-se, também, bastante limitado lexicalmente, tal como seria o de um bebê para com sua mãe, demonstrando dependência e vulnerabilidade para com o ser amado.

Quando nasce o sexo?

A descoberta sexual, segundo Gikovate, é algo pessoal; vem de um prazer positivo – que mais tarde será chamado de excitação – de se conhecer o que serão as zonas erógenas do corpo; nasce da descoberta que o bebê faz de que seu corpo é diferente do corpo de sua mãe; e, finalmente, não depende de qualquer desconforto anterior.

Portanto, temos, aqui, as primeiras diferenciações entre sexo e amor:

  • Sexo é excitação; prazer positivo (não depende de qualquer desconforto anterior para existir); e pessoal.
  • Amor é paz; prazer negativo; e interpessoal.

Amor se sente. Sexo se pratica.

E continua: às vezes o amor pode até atrapalhar o sexo, especialmente para os homens! Não só o sexo não tem ligação direta com o amor, como, às vezes, pode entrar, inclusive, em oposição.

O quebra-cabeças dos relacionamentos

Não raras vezes, os casais são formados por 1 parceiro generoso (homem ou mulher) + 1 parceiro egoísta (homem ou mulher). E curiosamente, os parceiros mais dedicados ao sexo serão os “generosos”, acostumados a ceder quando precisam, especialmente quando têm como parceiros os mais egoístas – acostumados a controlar a relação e, inclusive, a frequência com que o sexo é praticado entre o casal.

Quando há uma ligação entre dois parceiros generosos, a relação se complica, ao contrário do que se possa parecer. Isso acontece pois, em geral, o homem tende a ter um desejo sexual reduzido nestes casos. Por isso, a maior parte dos casais que se dão bem, tendem a ter uma vida sexual relativamente pobre. Destarte, não se pode tomar a vida sexual como parâmetro da qualidade de entrosamento amoroso entre o casal.

Escolher ou ser escolhido

Platão, em “O Banquete”, dizia que o amor deriva da admiração. Mas será que admiramos o que o outro tem, ou o que não encontramos em nós mesmos?

Que o amor derive de nossa admiração – seja pelo outro, seja pelo que não encontramos em nós mesmos – é algo bastante aceito hoje em dia, inclusive por Gikovate. O problema, entretanto, é que este critério de admiração pode se modificar com o tempo.

No geral, quanto mais baixa a sua auto-estima, maior a probabilidade de se admirar o seu oposto.

O sumo bem só no ideal perdura…
Ah! Quanta vez a vida nos revela
Que “a saudade da amada criatura”
É bem melhor do que a presença dela…”
Da Realidade – Mário Quintana

Esse processo é curioso, pois um dia você pode se desencantar pelas mesmas razões pelas quais você se encantou.

Outra possibilidade para o desencanto está, muitas vezes, no fato de que um dos dois evolui muito mais do que o outro. Neste “não acompanhar” pode residir o motivo do fim de uma relação.

“O amor não resiste a qualquer tipo de contratempo. Ele precisa ser tratado de maneira delicada, pois, quando se acaba a admiração, o amor se vai.” – Flávio Gikovate

Será que estamos preparados para viver a solidão de quando o amor se vai?
Neste ponto da palestra, Gikovate explica por que muitos casais insistem em ficar juntos, mesmo quando o relacionamento está esvaziado de sentimento. De todas as variáveis possíveis, muitas vezes o ciúme acaba funcionando como afrodisíaco na relação. Em outras vezes, há a teimosia em se achar que é possível modificar o outro com o qual convivemos, sem perceber, entretanto, que muitas vezes se muda o outro muito mais eficientemente quando se muda a si mesmo. Portanto, toda a energia que se gasta deveria ser gasta em si mesmo.

“Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.”

Camões

O amor quando se desfaz

A dor da ruptura é quase sempre mútua, mesmo para aquele que tomou a iniciativa de se separar. E o tempo, claro, é apresentado como o remédio efetivo para a cura de todas as feridas.

No momento da separação, há a dor da ruptura que, não raras vezes, é confundida com a dor da solidão. Esta, entretanto, só aparecerá depois de algum tempo, quando o indivíduo de acostumou a ficar sozinho. Nem sempre, é claro, a dor da solidão acontece.

O psicanalista afirma, ainda, que quanto maior a atividade intelectual e social da pessoa, maior sua capacidade de superar este momento de transição. 
Esta dor de transição tende a ser mais leve para as mulheres, que ficam com o entorno menos prejudicado no caso da ruptura de um casamento, por exemplo. Geralmente, elas ficam com a casa e os filhos. Já para os homens, o fim de uma união estável costuma representar sua saída do sistema.

Em nossa sociedade, nem homens nem mulheres são treinados para a solidão, diferentemente do que acontece em sociedades de primeiro mundo, de um modo geral.
A pergunta que se faz é: em um mundo moderno, em que cada vez mais se reforça os valores individualistas, que tipos de relacionamentos começaremos a escrever? Na opinião do psicanalista, este mundo moderno “puxa” os indivíduos a largarem o conceito do amor infantil (até aqui apresentado), baseado na interdependência de seus membros, para um relacionamento mais focado entre seres parecidos entre si, indo mais em direção das amizades e ganhando conotações mais adultas, uma vez que amizades significam afinidades de caráter intelectual – aconchego mais sofisticado que o “colo” materno até então buscado. É preciso que o aconchego principal derive das afinidades intelectuais. Nós estamos falando de um novo tipo de romance, em que o respeito às bases individuais se faz mais fortemente presente. Neste momento, o palestrante apresenta o conceito de “Mais Amor”, definido nas seguintes linhas:

  • Amor que se aproxima das amizades;
  • Que gera relações de qualidade;
  • Baseadas em afinidades;
  • Com futuro mais promissor do que o antigo relacionamento entre opostos.

Em suma: ou se estabelece um relacionamento com o seu oposto, ou com seu afim. No primeiro caso, a individualidade não cresce, pois se reforça a pior parte da alma do outro. Por exemplo: o egoísta reforça a demasiada generosidade do outro e vice-versa. A individualidade, aqui, é entendida como autossuficiência.

“Num mundo mais individualista, as afinidades são essenciais, pois a capacidade de fazer concessões vai diminuindo.” – Flávio Gikovate

E a palestra é finalizada com os seguintes dizeres: temos que atualizar o entendimento do amor, do sexo e de todos os itens das relações interpessoais. Simplesmente: genial.