Vôou (ainda)

“A Roos e as Cidades

Quando, afastado, segundo a visão ordinária do tempo, desta aventura dúbia, empreender falar de Roos, estarei repetindo, em certa medida, os nossos diálogos insuficientes. Darei sem esforço os traços próprios de Roos que surgem em outras mulheres: o sorriso fácil e a tendência a assumir sem transição uma atitude pensativa. (Aflige-a alguma lembrança pesada e indesejável.) Poderei, entretanto, descrever as cidades que flutuam no seu corpo como refletidas em mil pequenos olhos transparentes? Como dizer que penetro nesses olhos _ olhos ou dimensões _ e constato que as cidades, aí, são ao mesmo tempo reflexos de cidades reais e também cidades reais? Inumeráveis, íntegras, eis as cidades de Roos, erigidas nos ombros, nos joelhos, no rosto. Conheço, invasor, as suas ruas, seus edifícios desertos, seus veículos vazios, suas árvores, pássaros, insetos, flores e animais (nenhum ser humano), e os rios sob pontes frágeis ou magnificentes. Haia, Roma, Estrasburgo, Reims, Granada, Hamburgo. Sim, falar de tudo isso será refazer em outra direção, com idêntico malogro, os meus limitados diálogos com Roos.”

- Osman Lins, in Avalovara

—————————

Só quem caminha com tantas dentro do corpo pode entender as explendorosas cidades que habitam em mim.

E se entregar a cada uma delas, dói. No entanto, não me restam alternativas: expulso das células-mater-de-tudo o que de pecado a (re)ligião ensina, e agrego, a cada gozo, os sabores, os passos, a infinitude dos seres que me habitam.

Sou? Serei? Seria?

Sereia, talvez.

Abri passagens aos olhos de Walter Benjamin, na língua de Chico Buarque, na massa cinzenta-fênix de Sartre. Comi Clarice e revivi muito mais. Agora aqui, disposta, largo tudo para deixar para trás um passado que já não cabe, mas que não nego. E os olhos, presentes, contemplam a loucura presente da ave Avalovara de Osman, me levando, me seguindo, me consumindo toda em cidades, em leões, em esPirais.

(Continua, sempre.
Nem sempre por aqui.)

Publicado em: on 26/08/2008 at 18:24 Deixe um comentário
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A esmo

Porque é assim
Tiro a foto que
guarda:

momento de se calar.

E porque não é (só) assim
Vou tirar outra foto
Quando quiser

Regressar

E a manhã está linda
E quero tudo
Amor e indiferença

-E porque o outono não existe apenas para justificar a primavera-
Escrevo de novo
Na foto que ainda vou tirar

Guarda para expôr: quando regressar, dê-me tudo
E nada mais

Publicado em: on 18/08/2008 at 13:45 Deixe um comentário
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Agora é sobre Contardo

O segredo da vida de um casal

Contardo Calligaris

Receita do amor que dura: amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente.

Em geral , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta). No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um “viveram felizes para sempre”, que seria a “óbvia” conseqüência da paixão. No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?

Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal. O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la “Dormindo com o Inimigo”.

Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista “New Yorker” e em alguns livros (por exemplo, “Travels with Alice”, viajando com Alice, de 1989, e “Alice, Let’s Eat”, Alice, vamos para a mesa, de 1978). Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.

À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo? Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001.

Trillin escreveu “Sobre Alice”, que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos. O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.

Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de “Sobre Alice”: “Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia”. A graça está no fato de que a “propensão” de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.

Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel. Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.

Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal. Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.

Publicado em: on 16/08/2008 at 19:31 Deixe um comentário
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( )

Vovô foi viajar
Esqueceu os documentos
Deixou as roupas
Pra nunca mais
Dormiu

Publicado em: on 08/08/2008 at 21:05 Deixe um comentário
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Vazada

Vi o objeto ao varal

Vermelho

Despudoradamente livro

Livre

De minhas mãos

– que tentavam, em vão, segura-lo –

Vazava

Do romance-poema

Espirais e quadrados

Vi o objeto-varal

Despudoradamente velho

Vermelho-livre

Livro de minhas mãos

Vãs

Vão vazava Avalovara-romance

Poema de quadrados espirais

Devorei-o

Despudoradamente vermelha

Velha veia vã

Desmedidamente vazada

Aglutinada

Espiralada

Enquadrada ao poema-romance-palavra

Canabalizei signos

Ressignifiquei vãos

Carnavaliza-ação

Fagia de Antropos

– sem Antas –

OsMaldianamente

(sebo USP e Campinas sem sol – 27/06)

Publicado em: on 03/08/2008 at 05:00 Deixe um comentário
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