sub-atração

“em mim vive um verso
nascido da semente
engolida pelo inverno

em mim mora um tempo
regado pelo vinho
arrancado do verbo do chão

em mim resta a poesia
que escorre perene
por entre as planícies da mão”

(Nel Meirelles in: “Subtração”)

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quisera eu ser verso
semente do tempo,
vinho lambendo o chão…

quisera eu ser verbo
poesia perene
nas lonjuras de tua mão…

Mas este infinito quebrar de dentes,
esta infinita subtração
traz-me de volta à tal da eterna condição:

Inverno. -

Publicado em: on 29/09/2006 at 19:45 Comentários (4)

Pirâmide

não importa mais
o que não foi
o que não volta
o “se” escondido embaixo do travesseiro

não importa mais
o risco
o rabisco
traçado pelo olho
desenhando contornos só seus. Tão meus.

não importa.

eu vou construir aquela pirâmide que você me pediu
para rabiscar em nossas agendas
no dia da sua partida.

e vou sorrir,
meu amor – me perdoa a infâmia -,
lembrando, na agenda, da página ao lado
com o poema de Florbela Espanca.

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(Página ao lado)

Silêncio!…

-Florbela Espanca-

No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te à porta…

Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

Estou junto de ti, e não me vês…
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se pousou e se perdeu!

Trago-te como um filho nos meus braços!
E na tua casa… Escuta!… Uns leves passos…
Silêncio, meu Amor!… Abre! Sou eu!…

Publicado em: on at 19:00 Deixe um comentário

Passos passados

A Uma Passante

Charles Baudelaire
tradução Guilherme de Almeida

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho… e a noite depois! – Fugitiva beldade

De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?

Longe daquí! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

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Vou lhe escrever um bilhete
onde deixarei respingar
as gotas de minha amizade.

Ao verso
-meu ainda Amado Amor-
atualizarei meu telefone
e as reticências
de minha saudade.

Publicado em: on at 18:51 Deixe um comentário

Vertigens

 do alto de meu penhasco pessoal, acredito na força divina que, um dia, ainda me conduzirá para baixo. irremediavelmente.
alguns dias me sobram; alguns passos me assolam num futuro próximo; e os fantasmas apenas aguardam a coragem que sequer lhes confidenciei.

entre as linhas já escritas e as besteiras do porvir, um salto: é a vertigem, atenuando a minha culpa.

Publicado em: on at 18:47 Deixe um comentário